31 de jan de 2011

Há décadas, entrar na universidade é dura missão no Brasil

Não é de hoje que os estudantes brasileiros enfrentam uma dura batalha para garantir uma vaga na universidade. O vestibular foi instituído no Brasil em 1911, por meio de um decreto governamental. Desde então, o governo e as instituições de ensino têm feito sucessivas mudanças nos exames – nem todas positivas. A Reforma Universitária de 1969, por exemplo, estabeleceu o critério classificatório para a entrada nas universidades. Mas também instituiu a  data única de vestibular a todas as escolas superiores oficiais – ideia fracassada, como mostrou reportagem de VEJA de 1972. Quarenta anos depois, o novo Enem surgia como a maior transformação nesse tipo de prova desde 1911 – e como uma versão aprimorada do vestibular unificado. E agora tenta sobreviver às trapalhadas do governo para não se tornar outro fracasso.
“Quero água, tenho sede”, suplicou a um dos fiscais encarregados de o vigiar, num tom entre o vago e desesperado. Semiconsciente, cambaleando pelos corredores do Maracanã, o rapaz foi conduzido a um dos postos médicos instalados no estádio. A quem lhe perguntasse o nome, respondia atônito: “Setor 48, que horas são?” O candidato do setor 48 do Maracanã é apenas um simples figurante do carnaval às avessas que tomou conta do país desde as 8 horas da manhã do último dia 7 – início dos vestibulares de todas as universidades públicas brasileiras.
Em Belo Horizonte, 1204 estudantes foram atendidos pelo serviço médico instalado no Mineirão. Os casos mais comuns eram de vômitos, diarreias, disenterias, desidatração – as “doenças do vestibular”, causadas por tensão nervosa ou exposição demorada sob o sol intenso. Mas, se em seu conjunto os vestibulares permaneceram antes de mais nada como penosos testes de resistência física, a temperatura da disputa está apresentando variações tão grandes quanto as que separam os trópicos das regiões polares. Em São Paulo, por exemplo, a média mínima para a classificação na Faculdade de Medicina da Santa Casa foi de 6,7. Mais de 3600 candidatos disputaram cem vagas. Ao mesmo tempo, em Bauru, no interior do estado, o primeiro colocado no Instituto Toledo de Ensino, entre 388 concorrentes, obteve 4,5 em português.
Apenas nos últimos 20 anos, o número de estudantes que passaram a tentar ingressar no ensino superior triplicou. Para atender às novas necessidades do ensino superior no país, que cresce a cada ano, o governo federal decidiu consolidar um sistema nacional de admissão. Em 2009, foi criado o novo o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), substituto do vestibular em centenas de universidades públicas e particulares do país. O exame trazia ainda uma importante novidade: a priorização do raciocínio lógico em detrimento da decoreba. O sistema unificado de admissão às universidades é algo que o Brasil começou a fazer com atraso em relação ao resto do mundo. Já é assim no Chile, no Japão, na China e em grande parte da Europa.
Mais complexa e abrangente do que o extinto Enem, criado pelo MEC em 1998, a nova prova foi concebida sob a inspiração do SAT, o exame de admissão às universidades americanas, e do Pisa, teste internacional que afere a qualidade do ensino. O que era para ser uma boa ideia, porém, tornou-se motivo de angústias e indefinições para os estudantes. Já no primeiro ano de sua aplicação, o Enem tornou-se caso de polícia: o exame foi surrupiado da gráfica, em São Paulo, por funcionários do próprio consórcio responsável por sua elaboração e distribuição da prova. E a sequência de trapalhadas do Ministério da Educação não parou por aí. Houve ainda vazamento de dados de candidatos e, em 2011, versões do exame apresentavam erros no enunciado.
É importante para o país que o governo recupere a credibilidade do Enem. E as soluções para que o exame sobreviva e se imponha aos erros existem. Elas passam pela simplicidade. É preciso descentralizar o Enem. Ao aplicar uma única prova a todos os estudantes e centralizar sua gigantesca logística num órgão oficial, o Brasil caminha em direção inversa à de países que primam pelo bom ensino. A existência de um exame único traz outro efeito colateral, este no campo acadêmico. Em muitos países, há provas diferentes para distintas áreas de conhecimento. O aluno pode escolher os testes a que vai se submeter de acordo com as exigências das universidades que almeja. Facilitar a vida do estudante numa fase de tantas expectativas é uma boa intenção, mas, no Brasil, a iniciativa submergiu em meio à sucessão de falhas do governo.
Fonte: Veja

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